NOMES E FACES DE UMA REGIÃO[1]

 

Paulo Sérgio Nolasco dos Santos - UFMS

 

Quem me fez assim, foi minha gente e minha terra.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Num volume que traça amplo painel histórico-sociológico-antropológico-lingüístico-genealógico da gente pantaneira, Abílio de Barros refere o ritmo do desacontecimento e outras heranças indígenas que comporão o variegado perfil e o esgarçado tecido da representação cultural da gente mato-grossense. Tal ritmo, ou ritual do desacontecimento, assume o caráter de citação pois que se refere aos seguintes versos manoelinos: “As coisas que acontecem aqui, acontecem paradas. Ou, melhor dizendo, desacontecem.” (BARROS, 1985:33). Tomando a própria obra de Manoel de Barros, seguida do jocoso subtítulo/paratexto Roteiro para uma excursão poética no Pantanal, mais o lendário desinteresse de seu autor a tudo o que representa exposição midiática – como legítimo pantaneiro, Manoel tem forte pudor da notoriedade –, configura-se um significativo traço da gente pantaneira, ou como propõe discutir este VII Congresso da ABRALIC, da terra & gente pantaneira. Assim, o ritual do desacontecimento refere-se aqui ao exemplo com o qual o crítico ilustra sua análise psicossocial: certa vez, estava ele insatisfeito e ansioso, por assim dizer, com a lentidão das tarefas, quando um velho bugre pantaneiro, lhe teria advertido, tocando-lhe com a mão no ombro: “Não fique nervoso, não adianta...o trabalho não tem fim...”.

Esse descompasso, sentimento de desinteresse, não-atendimento `as demandas de última hora, parece com efeito ser a marca, o Nome (com maiúscula), que, impregnando a densa camada constitutiva da representação cultural, acaba indicando uma faceta da gente e da terra, e de resto da vida sócio-cultural da região mato-grossense.

Continuando a citação manoelina, a historiadora e crítica de arte Aline Figueiredo assim expressou a face da nossa identidade ameríndia:

 

Fomos desvendados, em termos europeus, pela captura do índio, descobertos pelos metais e fixados pelo boi. Pela procura ou pelo encontro dos metais, prata na Bolívia, ouro em Mato Grosso, fomos ocupados entre os séculos XVI e XVII, no caso do Paraguai e da Bolívia e no século XVIII, no contexto mato-grossense, e, com a sua ausência ou escassez, fomos despovoados e esquecidos com a mesma rapidez com que fomos ocupados. Durante três séculos ruminamos com os nossos bois a mesmice e o marasmo do tempo. E com eles, pastando soltos pelos campos indivisos, delimitamos as nossas fronteiras. Nesse decorrer vivenciamos a sanha das atrocidades como ninguém. Construímos a nossa sociedade mestiça, mesclada de usurpados e usurpadores (FIGUEIREDO, 1988:8).

 

Sublinha-se aqui o quanto a distância e o isolamento, inicialmente responsáveis pelas dificuldades do nosso desenvolvimento no extremo oeste do Brasil, vão configurar, depois, o nosso desprendimento, que é sombra da nossa nostalgia, oriunda de um espaço de amplos horizontes do planalto, acentuando também a nossa vocação de sonhadores incorrigíveis: com o planalto, herdamos também a vasta depressão da planície pantaneira e talvez por isso, continua Aline, sejamos tão ensimesmados.

Segundo Barros, o meio físico-geográfico deveria influir no comportamento humano; o homem das montanhas, tendendo à introversão, ao ensimesmamento, diferencia-se do da planície, como o pantaneiro, cuja personalidade mostra-se mais aberta, solta e tendente à aventura e à mobilidade. Daí resulta que a beleza da paisagem – da planície – acaba imprimindo uma certa estética da amplidão ligada à abertura e largueza de vista. Já o Visconde de Taunay, compondo suas “visões do sertão”, registrara o poder de rememoração que aquelas planícies exerciam como se lhe ficassem estereotipadas na retina: “Sobremaneira notáveis todas as paizagens d’aquelle mal conhecido recanto de Matto-Grosso...” (TAUNAY, 1923:11). Taunay prossegue sua narrativa, relatando que o cenário que os cercava estava continuamente mudando. As serras de Maracaju que tanto o impressionaram, mostrando suas reentrâncias e saliências e as bandas do aldeamento dos índios terenas da Pirainha causando legítimo pasmo, com

 

(...) arcos, arcos naturaes de extraordinaria regularidade geometrica, já destacados (...); letras, inscripções, traços, gregas, como que borrados pela mão do homem, algum mysterioso e cyclópeo artista; columnas a meio partidas, porticos inacabados ou então rasgões monumentaes, quer singelos, quer ornamentados de delicadissimos recortes e rendilhados, __ enfim, essas formas tão caprichosas e variadas, (...) como se por alli houvesse, em tempos fabulosos, perpassado o genio fantasioso, criador, subtil, de algum architecto arabe (TAUNAY,1923:13-14).

 

É ilustrativo o fato referido por Barros que a expansão da Nhecolândia deu-se seguindo a orientação de que a leste as terras do Nheco tinham o limite da sua ambição; terras sem dono e sem fim (em 1899 as terras já legalizadas somavam 380 mil hectares). E continua o autor de Gente Pantaneira: “Eram grandes extensões de pastagens em terra firme. Firme foi o nome dado ao lugar. Fazenda Firme depois, célula inicial de toda a Nhecolândia” (BARROS, 1998:80).

Essa região, encravada no coração da América, assim caracterizada, parece ter sido, por força de um magnetismo próprio – centro geodésico –, alvo dos afetos dos grandes escritores que por ali estiveram e viveram, ou, ainda, por efeito de seus próprios encantos que teriam feito imprimir nas melhores páginas da literatura brasileira sua natural vocação marcada por riquezas culturais, ecológicas, turísticas e econômicas que, por motivações poéticas literárias ainda mais justificadas, fertilizaram um dos mais representativos textos do escritor mineiro, Guimarães Rosa, bem como a obra do escritor sul-mato-grossense, Manoel de Barros. Referimo-nos especificamente ao relato “Entremeio com o vaqueiro Mariano” e, grosso modo, à obra de Manoel de Barros, problematizando o mesmo universo de representação, sobretudo no seu Livro de Pré-Coisas que traz como subtítulo, repetimos, o significativo paratexto: Roteiro para uma excursão poética no Pantanal.

A aproximação dos dois artífices da palavra toma projeção de um encontro marcado nas paragens da Fazenda Firme, tendo por quadro de fundo a Planície da Nhecolândia: segundo Manoel de Barros, esse encontro se deu em junho de 1953, quando Rosa, embevecido pela prosa de um vaqueiro – o Mariano – ia construindo o seu relato à medida que cavalgava pelo Pantanal, onde “repetiam-se as paisagens”. A conversa de Rosa não era só com o vaqueiro Mariano, era também uma conversa com Manoel que é quem nos fala do sabor e do élan daquelas conversas: “Nossa conversa era desse feitio. Ele (Rosa) inventava coisas de Cordisburgo. Eu inventava coisas do Pantanal” (BARROS, 1990: 338). Pantaneiro e/ou vaqueiro, tanto Rosa quanto Manoel mostram-se exímios campeadores em sua “tauromaquia” da palavra. Seguindo a forma de um relato mitopoético, Manoel de Barros evoca o seu primeiro encontro com Rosa:

 

Por impulso de admiração peguei em Porto Esperança o vapor Fernandes Vieira que levaria o escritor Guimarães Rosa até Corumbá, pelo rio Paraguaio. Era de noite entre árvores. Águas paradas no escuro. Calor e mosquitos levaram os passageiros para os camarotes. Manhãzinha, outro dia, um vento macio e alvo soprava. Rosa saira cedo do camarote. Estava sentado n o tombadilho tomando fresca. Do bolso da paisagem borboletas queriam escapar. Rosa abriu a paisagem e as borboletas sairam. O corpo do vapor quase tocava nas árvores do barranco. Andava essa lancha que nem um cágado travado. Dava pra ver nas lapas abertas lontras dormidas. Dava pra ver rancho amanhecendo. Talvez uma chácara amanhecendo. Dava pra ver um curral de bezerros, um homem e um menino pardos. Eu fabricava coragem para puxar uma prosa com aquele João. Nessa hora as mariposas relavam na água as bundas. Uma anhuma rasou por cima de nós, tocando fagote. Eu disse para o Rosa ouvir: O canto desse pássaro diminui a manhã. Rosa pôs tento. Ele tinha uma sede anormal por frases com ave. Me olhou sentado na frase e se riu para mim. Gostou que eu estava fraseando no vento. Quer dizer que esse anhuma diminui a manhã? – ele perguntou. Eu disse: um homem que não tem ensino me ensinou. Ele não tem informação das coisas, mas adivinha. Rosa disse: Quem acumula muita informação pode perder o Dom de adivinhar. São as obscuridades coerentes do povo. Vai daí começamos a prosear lourenço (REVISTA CULTURAL, 1995: 11).

 

A expressão ser pantaneiro de chapa e cruz – como se apresenta Manoel de Barros –, além do seu significado cultural, aquele que tem a sua ancestralidade autenticada, puro de origem, gente simbolicamente brasonada (BARROS, 1998: 34), também confirma o caráter de genuinidade que atribuímos à poética manoelina. A arte de inventar, compartilhada por Rosa e Manoel de Barros, traduz-se na busca incessante da linguagem poética, que neste caso transforma o Sertão e o Pantanal, pertencentes à mesma categoria de terra-do-sem-fim, num pretexto, também pré-texto, para aquilo que Manoel explica como sendo a loucura do verbo: “Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza” (BARROS,1990:341), cujo exemplo citado seria o “Com o Vaqueiro Mariano”, um livro intenso de poesia e transfigurações.

O referido encontro de Rosa e Manoel de Barros, ganha, no relato da conversa que tiveram, conforme narra Manoel de Barros, um sabor de coisas inventadas à maneira do próprio vaqueiro Mariano que, sabendo, e por saber a seu modo particular de ver e explicar o Pantanal como mundo, recria recortes de textos, de enunciados colhidos ao longo do tempo e da vida. Como no caso dos sapos que são cantores: ao relatar a conversa que teve com Rosa, Manoel diz que perguntara se em Minas tinha sapo demais, ao que Rosa, desafiando, respondeu: “Tem quase menos que por aqui, mas os poucos que tem por lá cantam mais bonito.” O teor dessa conversa não se pode se atribuir , originariamente, à invenção dos dois (Rosa/Manoel), a menos que se considere o relato da conversa a partir do estatuto do sujeito da enunciação. Porque e segundo um outro relato, mais recente, o das crônicas da gente pantaneira, na realidade, a referência aos sapos cantores é atribuída ao inveterado bairrismo dos primeiros livramentanos migrantes do pantanal: o velho Mané Gregório, proveniente do Livramento, parente do pai de Manoel de Barros, recém-chegado, à beira do rio Paraguai, exibia as vantagens do Livramento mas era obrigado a concordar que sapo, afinal, aqui tinha mais; mas os poucos de lá (do Livramento) cantavam mais bonito... Por aí afora o bairrismo de cuiabanos e livramentanos é descrito minuciosamente por Abílio de Barros, chegando às raias do provincianismo e do isolamento grupal caracterizadores do insulamento muito próprio da “nossa gente”: “Do Livramento e Cuiabá tudo era melhor. Pacu do rio Paraguai tinha gosto de lodo, a cana era aguada, a abóbora, sem gosto. Da banana, nem falar, pois a do Livramento, no cortar, escorria mel” (BARROS,1998:56).

Deixemos por hora a interessante querela, tão própria de vaqueiros e prosadores, na sua inveterada vocação de contar estórias – concordando com Rosa que, se verdadeiras, belas são as estórias, se imaginadas, ainda mais –, para acompanharmos nossos dois prosadores pelas terras do Nheco. A comparação do vaqueiro Mariano com o escritor é lindamente declarada por Guimarães Rosa já no enunciado de abertura de seu relato: “Em julho, na Nhecolândia, Pantanal de Mato Grosso, encontrei um vaqueiro que reunia em si, em qualidade e cor, quase tudo o que a literatura empresta esparso aos vaqueiros principais” (ROSA,1994:775). Logo depois o narrador rosiano, refletindo sobre as lides de um e de outro, da sua assaz solidão, que é também no nível metafísico e existencial, motivadora de toda a paisagem da desolação humana, problematiza o próprio ato de narrar como sendo um ato de resistência:

 

Te aprendo ao fácil, Zé Mariano, maior vaqueiro, sob vez de contador. A verdadeira parte, por quanto tenhas, das tuas passagens, por nenhum modo poderás transmitir-me. O que a laranjeira não ensina ao limoeiro e que um boi não consegue dizer a outro boi. Ipso o que acende melhor teus olhos, que dá trunfo à tua voz e tento às tuas mãos. Também as estórias não se desprendem apenas do narrador, sim o performam; narrar é resistir. (ROSA,1994:779).

 

Confirma-se nesses fragmentos a luminosidade do verbo enlouquecido, freando os excessos de natural como queria Manoel em sua conversa com Rosa, que anos depois lhe oferece um exemplar do seu “Com o Vaqueiro Mariano”: Olha aí, Manoel, sem folclore nem exotismos – como você queria (BARROS,1990:341). Nem folclore, nem exotismos – disse Rosa. Antes a visão de uma paisagem transfigurada pelo poeta que em silêncio assiste ao pôr-do-sol, tendo-o como suporte de uma paisagem mais densa, volátil: o homem, o pantaneiro, o vaqueiro. Se o humor e a ironia sempre destilaram sua seiva nas melhores páginas da literatura, nesses textos em análise ele encontra sua condensação genuína. Quer venha do vaqueiro Mariano, ou ainda do Bernardo, esse transfazedor da natureza (alter ego de Manoel), “ser cuja palavra amplia o silêncio”, a predisposição para o jogo intelectual é uma constante que resulta em palavras ácidas, farpas trocadas, entre risos. Com isso o poeta reflete a ânima do pantaneiro, naturalmente afeto ao espírito irônico constitutivo do gracejo, do ato inteligente. O episódio envolvendo o Neco Caolho – conforme relata Barros – é síntese ilustrativa dessa índole pantaneira: vinha o Neco Caolho pela calçada, quando uma das moças do grupo, lança-lhe a pergunta irônica: “Seu Neco, feiúra dói?”. De imediato, veio a resposta ferina: “Acho que não, minha filha, eu nunca vi você gemer!”. Essa estória, com os elementos definidores de um espírito crítico peculiar – ironia, surpresa e certa dose de agressão – até parece caracterizar o estilo de um embaixador muito conhecido nosso – Roberto Campos – que, por sinal, é de origem papabanana e vem a ser sobrinho-neto daquele Neco Caolho da ilustrativa estória narrada por Barros.

Quer se chamar a atenção, aqui, para a condição de emaranhamento que perpassa o horizonte do pantaneiro entrelaçando a paisagem num ato performativo onde o ser pantaneiro é ser arborizado e é, por extensão, a própria paisagem: o seu isolamento, o seu pequeno mundo de conhecimento, é sobrepujado pela recorrência às imagens e brincadeiras, ou como diz Manoel de Barros: “No uso de cantos e recontos / O pantaneiro encontra o seu ser. / Aqui ele alcança a altura das manhãs / E os cinzentos do entardecer.” Esse emaranhamento dos seres com a paisagem e com o infinito acaba compondo o Texto, único, complexo, que não indica nenhum pre-texto. “Quisera humanizar de mim as paisagens./ (...)/Que eu possa cumprir esta tarefa sem / que o meu texto seja engolido pelo cenário.” (BARROS,1999).

Um momento de elevada transfiguração poética é o da queimada. No relato de Rosa, a queimada é mais do que uma herança cultural, necessidade agro-pastoril; ela metamorfoseia o olhar fascinado do sertanejo que aprecia o espetáculo do incêndio. O entrechoque, o entreofuscamento da queimada, do fogo propriamente dito, com o cair da tarde ou da noite, evoca, para além do relato de Rosa,outras imagens poéticas como as dos versos de Guilherme de Almeida: “Tarde grande tarde / de verdade/ (...) Tarde autêntica em que há / apenas o calor, a fumaça pesada / e o estouro oco dos toros verdes na queimada / grande, teatral / como um crepúsculo artificial.” E nestes outros versos de Castro Alves: “O estampido estupendo das queimadas/Se enrola de quebradas em quebradas / Galopando no ar” (WERNECK SOBRÉ,1966:211). Enfim, a paisagem, simultaneamente desoladora e encantatória, arranca de sua matriz poética, transfigurada, o grande poder fátuo que o verso manoelino os arrebóis latejam emoldura numa paisagem esteticamente exuberante: o fogo que corre pelas macegas quer tomar à noite imensa, com o brilho de sua lua e estrelas, seu poder de velar segredos de beleza... E quando ele passa, deixa ver o que repousava no limbo da aparência – cinzas floradas no campo, caramujos, ossos e terras vermelhas, antes vislumbradas apenas em sua densa poeira (NOLASCO,1999:177).

Não seria desses arrebóis, ou dessa grande tarde de verdade, que nos fala Manoel de Barros, mais uma vez, quando procura uma frase para encimar as fotografias de seu livro-álbum Para encontrar o azul eu uso pássaros?:“Nesta hora de escândalo amarelo / os pingos de sol nas folhas / cantam hinos ao esplendor”. Para em seguida anotar sobre a fotografia de uma palmeira: “Uma palmeira coberta de abandono / é como um homem / de escura solidão”.

Mas a gente já está chegando de volta, disse o vaqueiro Mariano, o Firme é ali... E aponta para Rosa.

 

Olhei. Vinha uma nuvem, engrossado vulto, rodando no ar. Seu revoluteio era muito lento; parecia abdorme enxame de abelhas. Zumbia, zunia. Ora turbilhonava, sempre à mesma altura. Oscilou, foi, veio.

– É um bandão de caturritas... O senhor repare naquele redondo de espinheiro, mais alto, mais verde do que o capim: ali é uma baía seca, que não recebeu água este ano... As caturritas comem as frutinhas do espinheiro, elas vão p’ra lá... O bolo negro balançou-se mais, subiu como um deslastrado balão, pairando, alto, bem por cima do círculo de arbustos. Partiam clingos, pios, do primitivo rondo de rio cheio. Algumas caturritas se desprenderam e entrevoaram em volta, expeditas, mas tornavam logo ao bando. A massa boiava no ar e bojava. Por que não desciam?.

– É a hora!

Do fundo da bola, aves se despegaram, umas. Baixavam, colorindo-se de verde: quando iam tocar nos ramos, já estavam do tom do espinheiro. E gritavam, de alegria. Derramaram-se outras, uma porção, todas desciam. Era uma chuva, era esplêndido: as caturritas se despenhavam, escorriam, caíam em catarata.

Quando o vôo se dissipou, Mariano desmanchou a minha surpresa.

– Vou mostrar ao senhor um ninho de tabuiaiá... – disse. E, como quem corrige:

– Aquelas voando ali são curicacas... Tem a curicaca-do-brejo e a curicaca-do-seco...

Retomamos a andada, repetiam-se as paisagens (ROSA,1994:797).

 

Concluindo esta exposição, evoco mais uma vez o encontro marcado que tiveram, nas paragens do Firme, Guimarães Rosa, Manoel de Barros e o vaqueiro Mariano, enaltecendo a simpatia que o vaqueiro pantaneiro despertou em nossos dois escritores. Tanto na entrevista famosa quanto na carta singular, Guimarães Rosa mostrou o quanto as “veredas” do sertão pantaneiro marcaram sua obra. Na entrevista concedida ao seu tradutor alemão, Günter W. Lorenz, ele afirma: “Eu queria que o mundo fosse habitado apenas por vaqueiros” (LORENZ,1973:323). E, ao se despedir da viagem que fizera à nossa região, assim escreveu numa carta para um conterrâneo sul-mato-grossense:

 

Não esqueço o boi laranja. (...) Sorvi o bafo do campo largo, os berros dos bois, toda a vivência de uma gente sadia e brava, ao longo do tropear das boiadas, esse mundo autêntico de sentimento, pitoresco, variado e sincero.(...) Apreciei imenso as passagens no genuíno linguajar nativo _ gostoso como o tereré, como a guavira. Deu-me vontade de voltar um dia a esse Mato Grosso Meridional, que me deslumbrou tanto: rever Aquidauana, Nioac, Miranda, Dourados, a Fazenda Jardim e o ‘Buracão do Perdido’ [s.n.t.]

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BARROS, Abílio Leite de. Gente Pantaneira. (Crônicas de sua História). Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1998, 251p.

BARROS, Manoel de. “Conversas por escrito (l970-l989), Entrevistas”. In: Gramática Expositiva do Chão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990, 343p.

____. Livro de Pré-Coisas. Roteiro para uma excursão poética no Pantanal. Rio de Janeiro: Philobilion Livros de Arte Ltda., 1985, 94p

____. Para encontrar o azul eu uso pássaros. 1. ed.Campo Grande: Saber Sampaio Barros Editora, 1999.

FIGUEIREDO, Aline. “Por Uma Identidade Ameríndia”. In:CATÁLOGO DO VI SALÃO DE ARTES PLÁSTICAS DE MS: Por Uma Identidade Ameríndia. Campo Grande: FCMS/SEC, 1987.

LORENZ, Günter W. Diálogo com a América Latina – Panorama de uma literatura do futuro. Trad. Rosemary Costhek Abílio e Fredy de Souza Rodrigues. São Paulo: E.P.U., 1973.

NOLASCO, Paulo Sérgio. “Um outdoor invisível: imagens do pantanal sul-mato-grossense”. In: CARVALHAL, T. F. (Org.). Culturas, Contextos e Discursos. Limiares Críticos no Comparatismo.Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1999.

NOLASCO, Edgar Cézar. “Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Manoel de Barros: Datas, encontros, conversas e afinidades literárias”.In: NOLASCO, P.S.(Org.).Ciclos de Literatura. Campo Grande: Editora UFMS. 2000. (no prelo).

REVISTA CULTURAL. Ano I. n 1, abr./mai. Pedro Juan Caballero/Paraguay: Gráfica Nice,1995.

ROSA, João Guimarães. “Entremeio com o vaqueiro Mariano”. In: Ficção Completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A.,1994. Vol. II, 1190p, p.773-799.

TAUNAY, Visconde de. Visões do Sertão. 1.ed. São Paulo: Off. Graph. Monteiro Lobato, 1923. 247p.

WERNECK SODRÉ, Nelson. “A queimada”. In: Tipos e Aspectos do Brasil. 8.ed., IBGE-Conselho Nacional de Geografia. Rio de Janeiro: 1966, 491p.



[1]Uma primeira versão deste texto, com o título No Pantanal da Nhecolândia: outras conversas com o vaqueiro Mariano, foi apresentada na mesa-redonda Literatura comparada: os limiares críticos, no colóquio 2000 palavras: o futuro das letras (UFPel, abr. 2000).